Anderson Silva: O Império Contra-Ataca
27/01/2015
estadao

Anderson Silva volta ao octógono neste sábado, 31, em busca de algo que talvez só ele saiba. O ex-campeão peso médio do Ultimate é o recordista da organização em defesas de título consecutivas (10) em em número de vitórias seguidas (16), marcas que talvez José Aldo e/ou Jon Jones baterão, mas nada tirará do “Spider” o posto de um dos maiores da história do MMA – se não é o maior. Contra Nick Diaz, na atração principal do UFC 183, o brasileiro terá a oportunidade de dar show e vencer um adversário perfeito para seu estilo de luta, após 14 meses ausente das competições e de um longo processo de recuperação de sua perna quebrada.

Felipe Rau/Estadão

Felipe Rau/Estadão

Aos 39 anos, Anderson não mostrava até sua grave lesão nenhum sinal de decadência física ou técnica. Curiosamente, o atleta perdeu duas vezes no momento em que desfrutava do auge de suas habilidades. Como definiu Jack Slack, um ótimo analista inglês do site Fightland (recomendo a leitura, para quem fala inglês), a brilhante indiferença à perfeição é que fez do “Spider” tão único. O lutador mais completo que se teve notícia até aqui se chama Georges Saint-Pierre e o final de sua carreira careceu em muito de emoção. GSP derrubava quem era bom em pé, trocava golpes com quem queria levá-lo para o chão e não fugia nunca de suas estratégias hermeticamente traçadas para não correr riscos.

Mas demorou para o brasileiro se tornar aquele que foi por anos o melhor lutador do mundo. Vejamos agora os passos de sua evolução.

Chute Boxe. Anderson é um atleta oriundo do muay thai que começou a ganhar destaque na carreira treinando na equipe curitibana Chute Boxe, famosa principalmente pela agressividade de homens como “Pelé” Landi, Rafael Cordeiro, Wanderlei Silva, Murilo Ninja e Maurício Shogun. Em uma época em que muitas competições de MMA eram disputadas em ringues, eles ganharam notoriedade com um estilo conhecido como sprawl and brawl, em que caçavam os oponentes na área de combate retangular, defendiam quedas de especialistas na luta agarrada e buscavam o nocaute o tempo todo.

Anderson, o mais técnico entre todos seus antigos colegas, foi campeão do Shooto, conseguiu algum destaque, mas não teve muito sucesso no Pride porque falhava em não ser derrubado e tinha pouco conhecimento do combate no solo. Mesmo combinando com maestria elementos de muay thai, boxe, capoeira e taekwondo para criar um estilo sem igual, faltava-lhe amadurecimento. Ele deixou a Chute Boxe, foi demitido do Pride, mudou-se para a Team Nogueira/X-Gym e se tornou um grande campeão do UFC. Por quê? Percebeu que atuando no contra-ataque ele tinha uma maior condição de defender quedas e qualidade para definir a luta em pé com golpes de encontro – e muito treino de jiu-jitsu, principalmente defensivo.

Anderson caçava Takese até ser derrubado; o japonês venceu por finalização

Guarda baixa. A área maior do octógono em relação ao ringue, ampliando a possibilidade da evasão e dando mais encaixe ao jogo de contra-golpe, a possibilidade de usar a grade para não ser derrubado e a baixa qualidade técnica dos strikers no MMA contribuíram para o sucesso do “Spider” – tudo aliado à sua genialidade. Forrest Griffin passou vergonha telegrafando combinações e até Vitor Belfort – por melhor que ele esteja hoje e está muito bom – acabou pagando por um erro básico de cessar a movimentação mesmo que por alguns segundos.

Mão esquerda, mão direita, mão esquerda: Griffin pagou pela previsibilidade

Se o Anderson é tão bom em uma área, por que aceitariam atuar nela? Por que não tentar derrubá-lo? A chave da estratégia passa pela guarda. Abaixar os braços o permite defender as quedas, as provocações chamam e quebram psicologicamente o oponente, o ótimo jogo de esquiva e o queixo duro por muito tempo foram defesas suficientes para ele atuar com segurança no MMA. Chael Sonnen sempre foi um atleta limitado, mas ele tinha auto-confiança sobrenatural e wrestling ofensivo que era um pesadelo para o “Spider”. Faltou ao norte-americano jiu-jitsu e capacidade de terminar os combates, enfrentar o brasileiro por cinco rounds e esperar que ele não tire um coelho da cartola é muito otimismo.

Mesmo assim, a ameaça das quedas deram a Sonnen a vantagem de pegar o rival desprevenido e aplicar-lhe um improvável knockdown.

O wrestler Sonnen atinge o striker Anderson

Vícios. Como eu disse anteriormente, o Anderson Silva dos UFCs 162 e 168 era o melhor tecnicamente dos que já haviam aparecido. Os problemas dele nesses dois eventos têm nome e sobrenome: Chris Weidman. Os mecanismos de defesa de Anderson funcionavam até o norte-americano aparecer e explorar hábitos que atletas inferiores na área do striking não eram capazes. Em nada isso é demérito, todo lutador tem vícios, o “Spider” os desenvolveu porque pouco era exigido na luta em pé e contra Weidman sua atenção estava voltada para as quedas do jovem e forte wrestler.

Por exemplo, Anderson em muitos socos que levou na carreira rolava o rosto junto dos punhos adversários para absorver o impacto. Essa técnica o permitia fazer a esquiva de jogar o tronco e o pescoço para trás, o que é pouco recomendável, como fez com Griffin e Bonnar.

Contra a grade, Anderson defendia quedas e se esquivava de golpes telegrafados

Agora reparem no nocaute de Weidman. Anderson é acertado com a mão esquerda, finge sentir, toma outro soco com a esquerda e se esquiva da mão direita. Depois, o natural seria vir a mão esquerda, mas Weidman tenta acertar o então campeão com o verso da mão direita, que tinha acabado de tentar um golpe. Anderson se esquiva, joga o pescoço para trás e fica sem base para absorver o derradeiro ataque de esquerda do rival. Knockdown, muitos socos (a maioria no tablado) e nocaute, nós temos um novo campeão dos médios.

O soco com o verso da mão direita foi chave do nocaute

Anderson também tinha o perigoso hábito de chutar as pernas do adversário sem fintar. Ele fez isso na primeira luta com Weidman e daí saíram os golpes mais contundes do brasileiro no confronto. Meses depois, o norte-americano havia treinado para não permitir que acontecesse de novo. O ideal é sempre chutar após uma combinação de socos, principalmente quando um destro ataca um canhoto ou um canhoto o faz contra um destro. Se o oponente está preocupado em cobrir o rosto, ele deixará a perna exposta e não a levantará para bloquear. Nada é mais elucidativo do que ver uma sequência de chutes na perna desferidos por Ernesto Hoost, hoje um aposentado kickboxer holandês.

Como dito antes, Anderson é um contra-golpeador. Chutar a perna dos rivais, mesmo que despretensiosamente, é uma forma de chamá-los para lutar. Porém, depois da surra que suas pernas levaram no UFC 162, Weidman bloqueou dois dos três chutes que receberia no UFC 168. Um deles causou o fim do combate, quem quiser rever pode clicar neste link.

Com nova luta por cinturão prometida em caso de uma provável vitória sobre Nick Diaz, Anderson precisará voltar a abaixar sua guarda para evitar as quedas de Weidman, no caso de uma terceira luta, mas deixemos isso para o futuro. Voltem aqui na quinta-feira para ler um post sobre o polêmico adversário do “Spider” e por que ele tem pouca chance nesse confronto. Também fiquem de olho na cobertura especial do Estadão para o UFC 183, inclusive com participação in locodo meu amigo e repórter Felipe Cordeiro.